19/02/2001 
A guerra das plataformas 

Pequenas e grandes empresas lutam para ser a plataforma de software dominante da indústria móvel. 

Em cada nova indústria que surge dentro da Tecnologia da Informação nós revivemos a luta para ver quem estabelece os padrões dessa tecnologia. Em jogo está uma vantagem desproporcional frente à concorrência para o vitorioso. Foi assim na guerra entre Microsoft e Apple, na guerra dos browsers entre Netscape e a mesma Microsoft, e é assim também na era móvel.

Poucas coisas são tão críticas quanto a plataforma de software. Uma plataforma de software móvel tem a mesma função básica de uma plataforma como o Windows. Sobre essa plataforma serão desenvolvidas aplicações que proverão a funcionalidade ao usuário final; como no exemplo do Windows, o Office que usamos no dia-a-dia. 

No mundo móvel, aplicações como m-commerce e a mobilização dos sistemas de uma grande empresa, por exemplo, têm que estar funcionando sobre uma plataforma cuja função está em gerenciar as diferentes linguagens, aparelhos e redes que estão abaixo.

Neste segmento empresas pequenas com muito capital de risco enfrentam titãs da industria em disputa do domínio do software móvel.

Os pesos pesados...

A Oracle, a gigante empresa de software baseada em Redwood City, Vale do Silício, criou a Oracle Mobile somente para explorar a oportunidade móvel. Essa divisão da Oracle, que conta com apenas 300 funcionários, se tornou nos últimos meses a menina dos olhos de Larry Ellison, presidente e fundador da Oracle, e recebe deste uma atenção desproporcional dentro de uma empresa de mais de 43 mil funcionários e varias divisões.

Tanta atenção está na expectativa de que no futuro a demanda pelas aplicações móveis produzidas pela Oracle Mobile cresçam exponencialmente e venham a alavancar a demanda de todos os outros produtos da Oracle… e fazendo o Larry bem feliz.

No presente esta estratégia funciona ao revés, já que o maior canal de vendas para as novas aplicações da Oracle Mobile são exatamente os atuais clientes que usam produtos da Oracle.

A Oracle Mobile funciona como uma ASP (Application Service Provider), vendendo o software como serviço. A plataforma, chamada Online Studio, possibilita que empresas construam, testem e lancem aplicações móveis convenientemente e mais rapidamente, já que a solução é baseada na web e pode ser hospedada pela Oracle.

Outra gigante que não perdeu tempo para entrar no setor foi a IBM. A empresa, que viu sua hegemonia em computadores evaporar nos anos 80 por não conseguir acompanhar as novas oportunidades e novas regras que estavam sendo escritas no mercado, parece ter aprendido a lição muito bem. 

A IBM criou uma divisão chamada Pervasive Computing Unit (que em português significa algo como computação impregnante), e estende seu campo de trabalho a qualquer sistema de computação que não seja um PC e que esteja ligado a uma rede. Isso significa desde telefones celulares, pagers etc. Até refrigeradores e outros aparelhos domésticos modernos que estarão ligados à internet por meio de dispositivos sem fio.

Mas o maior campo de atuação da unidade é exatamente desenvolver o melhor modo de mobilização para a vencedora linha de produtos para e-business que milhares de clientes usam ao redor do globo. 

A sua plataforma móvel se chama WebSphere e se relaciona muito bem com as existentes plataformas de e-business da IBM, fornecendo, como no caso da Oracle, uma base de clientes já existentes, que considerarão o novo software um upgrade dos sistemas atuais.

Já se vê pelas táticas da Oracle e da IBM porque é tão vantajoso ter um produto vencedor no mercado…

…e novas empresas com muito dinheiro tentam a sorte

Mas não é porque pesos pesados como Oracle, IBM e outras estão nesse mercado que empresas novas movidas a capital de risco não vão tentar capturar uma fatia. Afinal a recompensa é enorme e é grande a chance de que no final várias empresas dominem segmentos diferentes da mobilização

A Brience é uma das que mais fazem mais barulho no Vale. Fundada em 98, a empresa já recebeu um round de investimento de mais de US$ 200 milhões, quando foi anunciado que seu presidente seria um ex-presidente da KPMG, que tem uma das maiores consultorias em TI do mundo.

Ela já tem clientes como AT&T, CNet e Hyperion para sua plataforma de serviços e parece bem posicionada para pegar market share do mercado.

Outra empresa no Vale é a Mshift, que tem muito menos recursos que as outras, mas nem por isso deixa de ter um time extremamente talentoso, que inclui uma brasileira (Suzana Loureiro) como vice presidente de marketing e US$ 10 milhões no último round de investimento.

Entre seus clientes está a Hewlett Packard, para quem fazem o portal móvel da HP Korea, que por sua vez irá vender a plataforma Mshift- chamada MobileShif Toolkit – para outros clientes na Ásia.

Além da Coréia, a Mshift é uma das primeiras empresas a tentarem aportar no mercado latino-americano, mostrando seus produtos na última conferência LatinVenture wireless, em Miami, no dia 13 deste mês.

E o ganhador é...

Não dá para se saber quem vai estabelecer o padrão dessa indústria, mas é claro que há muitos segmentos diferentes, como as operadoras de telecomunicações, as grandes empresas, as pequenas empresas e as empresas de internet. E já que as aplicações são diferentes para cada um desses segmentos, diferentes plataformas vão trabalhar melhor para um tipo de cliente do que para outro, gerando vários ganhadores em diferentes segmentos.

Empresas como Oracle e IBM já são ganhadoras, pois têm a facilidade de estar vendendo quase um ‘upgrade’ para seus existentes sistemas de e-business. 

Facilidades de quem já tem uma linha de produtos vencedora…e que os vencedores desta luta também vão ter no futuro. [web insider]

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Marcelo Lima é diretor de marketing da incubadora Amniventure, em San Francisco, e trabalha há três anos Vale do Silício com empresas de alta tecnologia e dispositivos sem fio.